segunda-feira, 29 de junho de 2026

csturando dia 29

Vivendo o teto da Terra como se fosse o Céu, Aprendi a beijar o impossível de joelhos; Fiz do barro um altar, do pranto um véu, E das sombras colhi os mais divinos espelhos. Minha alma, ave errante, sem destino, Buscou estrelas onde havia solidão; E fez do teu amor o doce hino Que incendiava em silêncio o coração. Bebi luar nas taças da saudade, Vesti de lírios a cruel melancolia; Dei à dor a suprema eternidade, Como quem faz da noite a luz do dia. Se amar é morrer, morro cantando, Num êxtase de rosas e de cruz; Vou pelos teus caminhos desfolhando Os sonhos que inventaram minha luz. E quando o tempo me fechar as mãos vazias, Hei de florir nas cinzas da lembrança; Pois quem fez da Terra morada de alegrias Já descobriu no amor a eterna esperança. Marilândia

domingo, 28 de junho de 2026

COSTURANDO POESIA 28 DE JUNHO

"Que a arte de amar não nos cause danos" Jô Tauil ____________________________________ Nem faça da esperança um jardim desfeito... Que saibam nossos beijos, soberanos, Vestir de eternidade o amor perfeito. Que tua voz desça em mim, mansa e serena, Como a lua beijando o espelho do rio; E que a saudade, tão cruel e pequena, Se perca, enfim, no calor do desvario... Quero amar-te sem medo das ruínas, Sem as cinzas de antigos desenganos; Colher estrelas vivas nas campinas Onde florescem sonhos sobre os anos. Que o destino nos escreva, delicado, Em pergaminhos feitos de luar; E que cada silêncio partilhado Se transforme num novo verbo: amar. Se houver dor, que seja breve como a espuma Que o vento leva ao ventre do oceano; Pois só merece o nome de fortuna O amor que não nos fere... e nos faz humanos. Marilândia

sábado, 27 de junho de 2026

COSTURANDO POESIA

Nos Véus do Inefável "E os véus de templos já me acariciam" Jô Tauil _______________________________________ Como mãos de luar ungindo a minha fronte, Há preces de silêncio que em mim principiam, Feitas de eternidade e de horizonte. Sob a minh'alma em lírios de brancura, Bebendo a paz das estrelas ajoelhadas; Deixo na terra a última amargura, Como folhas de outono pelas estradas. Quem me chama? Que voz de amor me espera No átrio azul onde o tempo já não passa? Talvez a própria Morte, doce quimera, Vestida de ternura, abrindo a graça... Quero dormir no colo do Mistério, Onde Deus borda os sonhos com jasmins; Fazer do coração um incensário etéreo, Perfumando de luz os meus jardins. E se meu nome o vento ainda murmura, Que seja como um salmo sobre o chão... Pois levo, entre as mãos, a eterna formosura: Teu amor... e o Divino Criador... dentro do coração. Marilândia

sexta-feira, 26 de junho de 2026

COSTURANDO 26 de junho

“Recebendo o verniz das coisas raras” Jô Tauil ________________________ Vesti de luz as mágoas que escondi. Fiz dos espinhos róseas tiaras, E em cada dor um gemido que correspondi… Meu peito aprendeu o idioma das estrelas, Que só os corações amantes podem ler; Bebi o orvalho azul das primaveras belas, Como quem nasce outra vez para reviver. Sei que o tempo desfolha as ilusões, Mas não alcança o aroma dos afetos; Há eternidades dormindo nas paixões, Entre suspiros lânguidos e secretos. Trago nas mãos a brancura das alvoradas, E nos olhos o céu de um sonho aceso; Minhas saudades são pombas encantadas Buscando o teu jardim, sempre indefeso. Se um dia eu partir na névoa do poente, Não chores o silêncio do meu adeus: Ficarei como um perfume permanente, Na auréola da eternidades que Deus semeou. Marilândia

quinta-feira, 25 de junho de 2026

COSTURANDO DIA 25 JUNHO

“Alterando a rotação das primaveras” Jô Tauil _________________________ Meu sonho mudou o rumo das estações; Fez do vento um rosário de quimeras, E bordou luar nas minhas mãos. As rosas vieram tarde… mais formosas, Com perfume de saudades e perdão; As tardes vestiram túnicas sedosas, E o céu coube inteiro no coração. Andei colhendo estrelas esquecidas Nos jardins secretos da esperança; Dei às horas fatigadas nova vida, E às lágrimas, o nome de bonança. Se a dor bateu, entrou de pés descalços, Sem romper os cristais da minha fé; Porque Deus semeia lírios nos percalços E faz brotar o in_finito onde o homem segue a maré. Hoje sei: quem ama altera o uni_verso, Mesmo em silêncio, sem jamais aparecer; Pois cada alma que floresce num só verso Muda a primavera eterna do bendizer. Marilândia

terça-feira, 23 de junho de 2026

COSTURANDO POESIA

“Mas continuo tecendo teias de esperanças” Jô Tauil ______________________ Com fios de luar nas mãos da madrugada; Bordo nos céus azuis antigas alianças Que a vida, distraída, deixou desfeitas numa cilada… Guardo dentro de mim jardins adormecidos, Onde cantam, em sonho, os lírios do querer; E os meus passos, por sombras tantas vezes perdidos, Ainda sabem a rota secreta do viver. Trago nos olhos fundos uma estrela esquecida, Daquelas que o destino não conseguiu quebrar; E mesmo quando a dor me cobre toda a vida, Há um sol escondido a querer despontar. Meu coração, ave errante, nunca se rende, Faz do pranto uma fonte, da ausência uma canção; E em cada despedida um novo amor acende As rosas imortais da sua devoção. Se o inverno vem gelar as fontes do caminho, Faço um manto de sonhos para me agasalhar; Pois quem traz dentro d’alma um luminoso ninho Transforma em céu de estrelas qualquer escuro mar. Marilândia

domingo, 21 de junho de 2026

COSTURANDO 21 DE JUNHO

“Em seu lenhoso coração de mulher vegetal” Jô Tauil _______________________ Dormem segredos de um jardim ancestral; Raízes fundas, em silêncio, entrelaçadas, Guardam luas antigas, nunca reveladas. Seus olhos têm o verde das fontes escondidas, Onde bebem os sonhos das almas perdidas; E o vento, enamorado dos seus cabelos, Faz ninhos de ternura nos ramos mais belos. Traz nos gestos a mansidão da floresta, E uma melancolia suave que ainda resta; É árvore e mulher, num mistério divino, Misturando o perfume da terra ao destino. Quando floresce,nasce a primavera inteira, E o sol faz dela sua amante derradeira… Quando chora,as chuvas descem devagar, Como quem aprende consigo a lamentar. Ah! Quem pudesse morar na sua sombra calma E ouvir a seiva cantar os segredos da alma, Pois seu lenhoso coração, forte e profundo, É um bosque de amor abraçando o mundo. Marilândia Ver menos

sábado, 20 de junho de 2026

COSTURANDO 19 DE JUNHO

“Aquele coração que vale ouro” Jô Tauil _______________________ Guarda o sol nas dobras do seu peito, Tem a ternura mansa de um tesouro E o dom de amar sem cálculo ou proveito. É fonte clara em árido caminho, Estrela acesa em noites sem luar; Faz do silêncio um meigo ninho Onde os sonhos aprendem a pousar. Quando a tristeza veste o mundo inteiro, Seu gesto é como um lírio a florescer; E o pranto mais profundo e derradeiro Consegue em seu afeto adormecer. Não pede glória, aplauso ou recompensa, Nem busca coroar-se de esplendor; Carrega uma riqueza imensa, Feita de entrega, de bondade e amor. E eu, que já vaguei por tantos portos, Sei quanto vale um peito assim, leal: É joia rara entre destinos tortos, Farol divino em mar celestial. Quem traz tal ouro dentro do coração Traz a eternidade em cada pulsação. Marilândia

COSTURANDO 20 DE JUNHO

“Tudo que fala em mim de amor foi dito” Jô Tauil _________________________ Nos jardins onde o luar dorme esquecido, Nas fontes onde o silêncio é infinito, E nos caminhos do sonho adormecido. Tudo que fala de mim foi já cantado Pelas aves que cruzaram o poente; Foi em estrelas de prata semeado, Foi perfume derramado docemente. Mas há segredos que ninguém adivinha, Sombras de lírios na alma peregrina, Um pranto manso que a saudade alinha Nas rendas finas da noite cristalina. Porque o amor que em meu peito se consome Tem a vastidão do mar sem ter um nome. E se o mundo julga a história terminada, Ainda guardo uma rosa iluminada; Flor que floresce na eterna madrugada, Feita de sonho, de luar e e_ternamente louvada. Marilândia

quinta-feira, 18 de junho de 2026

COSTURANDO 18 DE JUNHO

“Meus fantasmas se foram porque não curtem alegria” Jô Tauil _______________________ Fugiram ao primeiro raio de sol que me envolvia, Levaram seus mantos frios de saudade e desalento, E deixaram-me o perfume leve de outro sentimento. Já não choram nas janelas das noites sem luar, Nem bordam teias de sombra nos jardins do meu sonhar; Partiram como aves tristes perdidas na ventania, Quando viram que em meus olhos florescia um novo dia. Agora a alma se veste de rendas feitas de esperança, E dança sobre os abismos com a graça de uma criança. O coração, que era um templo de silêncio e de saudade, Abriu suas velhas portas para a doce claridade. Se ainda existe uma lágrima, é de ternura somente, Como orvalho que repousa sobre a rosa inocente, E as estrelas, uma a uma, descem mansas do infinito, Para ouvir o meu segredo transformado em canto escrito. Assim,descobri que o amor, quando é puro e verdadeiro É um jardim que vence o inverno mais severo e traiçoeiro… E agora,sigo sorrindo entre jasmins e luar, Com uma constelação de lírios acesa no meu olhar. Marilândia

quarta-feira, 17 de junho de 2026

COSTURANDO DIA 17

"Um misto de sonata... um louvor!" Jô Tauil _________________________________ Que sobe, em espirais, da alma inquieta, Como um cântico azul de eterna poeta Buscando a perfeição do seu amor. Há lírios a florir na minha dor, E luas a velar minha secreta Saudade, que se faz doce e completa Nas mãos de um sonho feito de esplendor. Quero beber a luz das madrugadas, Vestir-me dos clarões das alvoradas E coroar de estrelas o meu ser. Fazer do pranto um rio de harmonias, Das sombras, um jardim de fantasias, E do impossível, a arte de viver. Mas quando a noite inclina os seus véus frios, Escuto, entre silêncios e desvios, Teu nome ressoando pelo ar... E a minha alma, em perfume e desalinho, Faz-se sonata, estrela, rosa e ninho, Num eterno ofertório do coração. Marilândia

terça-feira, 16 de junho de 2026

COSTURANDO DIA 15 DE JUNHO

Jô Tauil _____________________ Andam perdidos pelos jardins da saudade, Colhendo estrelas nas noites mais virgens, Bebendo o orvalho azul da eternidade. Trazem nos olhos a sombra dos lírios, E nas mãos trêmulas o luar desfeito; São aves cansadas de longos exílios, Que buscam abrigo no teu peito. Vestem-se apenas de sonho e de espuma, De névoas suaves e rosas de abril; São como uma prece que sobe da bruma, Cantando segredos num tom febril. Mas quando teu nome floresce em meu canto, Ganham o brilho dos astros do céu; E aquilo que era somente pranto Transforma-se em ouro sob teu véu. Então meus versos, outrora tão nus, Tornam-se estrelas vagando sem fim; Pois levam acesa a chama da luz Que Deus e o amor acenderam em mim. Marilândia

COSTURANDO DIA 16

"Debruço-me sobre versos completamente nus" Jô Tauil ___________________________________ Como quem busca estrelas no fundo da amplidão, E colho entre silêncios os perfumes mais sutis Que dormem esquecidos nos jardins da ilusão. As palavras, tão frágeis, têm mãos de veludo, E afagam minha alma numa doce oração; São aves de luar sobre um mar insondável, São lírios desfolhados à beira da emoção. Há sombras de saudade nas rendas da memória, E ecos de quimeras perdidos pelo ar; Cada sonho desfeito é uma página da história Que o tempo não consegue apagar nem sepultar. Procuro o teu semblante nas águas do poente, Nos astros que florescem no azul crepuscular; E a noite, como um manto de tristeza resplendente, Vem meus olhos cansados de mistério embalsamar. Se o destino é um castelo suspenso sobre o nada, Quero habitá-lo inteira, entre a febre e a canção; Pois trago em cada verso uma rosa apaixonada E em cada rosa aberta um pedaço do coração. Marilândia

domingo, 14 de junho de 2026

COSTURANDO 14 DE JUNHO

"Com muito medo de não sentir o M da palma da tua mão" Jô Tauil _______________________________________ Guardo a noite entre rendas de suspiros e saudade; Como quem vela uma estrela à beira da solidão, Temendo que a aurora a roube à minha ansiedade. Levo nos olhos a sombra dos jardins que não vivi, E nas veias um perfume de crepúsculo e luar; Há um destino de rosas que sonhei e não colhi, Há um canto de esperança que não ouso despertar. Se te afastas, o silêncio veste luto nos caminhos, E as fontes do meu sonho secam dentro do jardim; As andorinhas da alma perdem todos os seus ninhos, E o céu fica mais distante, mais vazio para mim. Mas se pousa a tua mão sobre a febre do meu peito, Abrem-se lírios de prata nas ruínas do sofrer; E o mundo, pobre mendigo, torna-se reino perfeito, Onde os mortos ideais voltam todos a viver. Então bendigo a mágoa que me ensinou a esperar, E a saudade que bordou sua renda em meu destino; Pois foi por ela que aprendi a te amar sem te alcançar, Como quem busca uma estrela pelos vales do Divino. Marilândia

sábado, 13 de junho de 2026

COSTURANDO 13 DE JUNHO

“É todo teu meu coração!Está aqui só emprestado!” Jô Tauil _________________________ Levaste-o numa tarde em que o céu era luar, E desde então vagueio, em sonho enamorado, Como uma rosa à espera da hora de florar. Guardei-te nos jardins mais fundos do meu peito, Entre lírios de prata e perfumes de jasmim; Teu nome fez-se estrela, esplendoroso e perfeito, Brilhando sobre a sombra que havia dentro em mim. Se a saudade me chama pelos vales da distância, Respondo-lhe sorrindo, entre lágrimas e fé; Pois vive em cada ausência a tua doce fragrância, Como o perfume oculto que uma flor caída é. Amar-te é navegar sem mapa e sem destino, Num mar de eternidade e de silenciosa luz; É transformar a dor num cântico divino, E achar em cada espinho a bênção que seduz. Por isso, se um dia o tempo nos separar, E a noite derramar seus véus sobre o caminho, Meu coração irá contigo, a te buscar, Como ave que regressa ao seu primeiro ninho. E quando Deus fechar as portas do passado, Há de encontrar teu nome em minha rosa e_terna gravado. Marilândia

sexta-feira, 12 de junho de 2026

COSTURANDO 12 DE JUNHO

“Numa volúpia rara, pungente e pura.” Jô Tauil ___________________________ Meu coração desfolha-se em luar. Leva na voz a antiga formosura Das ondas que desaprendi de amar. Há no silêncio azul da noite fria Um perfume de sonho e de saudade, Que vem beijar a minha fantasia Com mãos de sombra e de eternidade. Teu nome é flor que nasce entre os meus ais, Lírio de fogo aberto sobre a dor; E os meus desejos, trêmulos demais, São aves procurando o teu amor. Passam estrelas pela minha estrada, Como promessas de um jardim sem fim; E cada estrela, pálida e velada, Parece um verso que escreveu por mim. Se acaso a vida é breve e passageira, Que seja breve à sombra do teu ser; Pois vale mais uma hora verdadeira Que um século sem te poder viver. E assim me entrego, doce e vencida, Ao eterno milagre de te querer na rosa jamais colhida. Marilândia

quinta-feira, 11 de junho de 2026

COSTURANDO 11 JUNHO

"Patentear o horizonte e fantasiar a miragem" Jô Tauil ____________________________________ Como quem prende a tarde num rendado véu de luar, E borda sobre o silêncio a secreta linguagem Dos sonhos que não ousaram nunca se realizar. Quero colher das estrelas o perfume do impossível, E vestir de rosas brancas a nudez da solidão; Fazer do pranto um cristal delicado e sensível, E da saudade um jardim florescendo no coração. Há uma fonte escondida nos vales da minha alma, Onde a tristeza adormece ao som de um canto distante; E uma esperança de seda, tão suave e tão calma, Que se desfaz em neblina ao toque de um instante. Ó vida, és ave errante em crepúsculos perdidos, Passas deixando nos lábios um gosto doce e mortal; Teus caminhos são tecidos de adeuses e gemidos, Teu beijo tem a doçura venenosa do ideal. Mas eu persisto sonhando os castelos da quimera, Erguendo torres de lua sobre abismos de ninguém; Pois quem nasceu para amar faz da dor sua primavera, E encontra no im_possível a razão de ir mais além. E morro em cada poema, e em cada verso renasço também. Marilândia

26 DE MAIO

“Sob um céu de acasos os sonhos estão minados” Jô Tauil ___________________________________ Como jardins de névoa em noites sem clarão. Há lírios de esperança entre os muros quebrados e um silêncio de adeus sangrando na amplidão. As horas vão caindo em círios apagados, na catedral sem voz do meu pobre coração; e os astros, um a um, cansados e exilados, morrem dentro da sombra em lenta procissão. Mas ainda guardo, entre ruínas e cansaço, a febre de te amar — derradeiro pedaço de luz que não morreu na cinza do viver. Porque até no abandono, austero e desmedido, há um perfume cruel, triste e desconhecido, que ensina a alma ferida a continuar sofrer. Marilândia Ver menos

27 DE MAIO

“Que viveu na timidez do meu amor esquivo” Jô Tauil ___________________________ Que viveu na timidez do meu amor esquivo, Que guardei como guarda o mar um navio morto, Que sonhei nos instantes em que o peito aflito Procurava nas sombras um improvável porto. Que fiz meu, que escondi debaixo da candura, Que tremi ao sentir que me escapava os dedos, Que chorei na solidão da minha noite escura Entre rezas que guardei e não ditos segredos. Que foi tudo e foi nada e foi a minha vida, Que me deu a coragem de nunca te pedir, Que ficou para sempre a meia-luz ferida, Esse amor que aprendi a amar sem te sentir. Que me fez pequenina e grande e desterrada, Que me pôs nos lábios sal ao invés de mel, Esse amor que viveu — e eu que fui amada Só por mim, só de mim, sob o mesmo céu. Marilândia

28 DE MAIO

“Hoje cato de mim caco a caco” Jô Tauil _______________________ recolho os meus pedaços pelo chão, sou eu mesma o espelho que eu destaco e a mão que apanha a própria destruição. Fui inteira uma vez — talvez num sonho — antes de me perder em tanto amor, agora sou este torpe abandono, este canto partido e sem calor. Procuro-me nos olhos que me viram, nas bocas que um dia me chamaram bela, nas vozes que me amaram e partiram levando cada sílaba da cancela. Mas junto os cacos, coso-os com os dedos, faço de mim uma outra donzela guardo nos olhos os últimos segredos e sou, partida, a mais inteira dela. Marilândia

29 DE MAIO

“Aceitando os frutos verdes que colhemos” Jô Tauil ___________________________ Como quem beija espinhos por amor, seguimos pela estrada onde colhemos as rosas sem perfume e sem fulgor. Teus olhos têm névoas de outono, e os meus, luas cansadas de esperar; há um sino triste em cada sonho tocando eternamente sobre o mar. Aceitamos a dor como se fosse um vinho antigo em taças de cristal, e o beijo que nasce da nossa fome morre em nossa boca, desigual. Às vezes penso: amar é ter nas mãos um pássaro ferido a estremecer, é querer transformar em primavera o inverno que insiste em florescer. Mas mesmo entre ruínas e silêncios, eu guardo a tua sombra em meu jardim; pois há frutos amargos que alimentam a alma que nasce para o sem-fim. E se a vida nos dá tão pouca aurora, fazemos do crepúsculo um altar; aceitando os frutos verdes da hora, aprendemos chorando a nos amar. Marilândia

30 DE MAIO

“Vale ainda pelas mil espadas empunhadas” Jô Tauil ___________________________ Pelos sonhos que tombaram sem perdão, Pelas noites de amarguras desfolhadas, Nos jardins silenciosos do coração. Vale ainda pelas lágrimas perdidas, Que o tempo não soube jamais enxugar, Pelas rosas de esperança adormecidas, À espera de uma aurora para as despertar. Vale ainda pelos beijos não vividos, Que morreram na distância e no luar, Pelos versos entre sombras escondidos, Que ninguém chegou a ouvir nem declamar. Vale ainda pelas mãos desencontradas, Que o destino separou sem piedade, Pelas almas para sempre entrelaçadas, Mesmo além dos véus da ausência e da saudade. Vale ainda, meu amor, por tua lembrança, Que floresce onde o inverno fez morada, Pois o amor é a última esperança, Das estrelas quando a noite é consumada. Marilândia

31 DE MAIO

“Vira fumaça e promessa aguardada” Jô Tauil ________________________ O sonho que guardei no coração, Tão frágil como a luz da madrugada Que foge antes da primeira oração. Fui eu quem quis acreditar demais, Fui eu quem deu ao vento o que era meu, E agora busco em cinzas o que há De tudo aquilo que um dia floresceu. Ah, que loucura a de se amar assim! Entregue, toda, sem guardar um véu, Sem perguntar se tinha lá um fim Esse caminho que nos dois perdeu. Sou a mulher que aguarda e que padece, Que bebe o fel e chama o fel de mel, Que chora quando a noite a envolve e cresce E ainda sorri ao sol mais cruel. Mas sou também a chama que não morre, O grito mudo que o silêncio abriga, A alma que desaba e se socorre No verso eterno que a si mesma intriga. Marilândia

1 DE JUNHO

“No arco-íris do nascente dia!” Jô Tauil ______________________ Pousei meus sonhos sobre a claridade, Como quem busca, em doce romaria, Um porto azul na eterna saudade. Vestiaa aurora um manto de ouro fino, Bordado à luz das lágrimas do mar, E o vento, peregrino e cristalino, Vinha meu nome em segredo murmurar. Colhi nas flores o perfume incerto Das ilusões que o tempo não desfez, E vi teu vulto, tão distante e perto, Passar na névoa pálida da ve Então meu peito, ave de asas feridas, Abriu-se inteiro ao sol do teu olhar, Como se todas as passadas vidas Voltassem, mansas, para me encontrar. Mas foi miragem de um jardim sonhado, Lírio de espuma sobre o azul do além; E eu fiquei, coração ajoelhado, Amando a sombra de quem nunca vem. Marilândia

2 DE JUNHO

<“Porque o amor domina o peito sem imprevisto” Jô Tauil ____________________________ Chega em silêncio, à sombra de um luar sem fim; Veste de ouro o sonho vago e nunca visto, E faz nascer jardins onde era só jasmim. Traz nas mãos a doçura das fontes encantadas, E nos olhos a cor das tardes de setembro; Desperta antigas harpas, há muito adormecidas, E canta em minha alma tudo quanto relembro. É uma chama azul nas torres do desejo, Um perfume de rosa embriagando a dor; Um castelo de névoa erguido num lampejo, Sobre os campos sem nome que florescem de amor. Quando me chama, vou por sendas irreais, Feitas de estrelas mansas e luar derramado; E esqueço as horas tristes, os invernos fatais, Como quem deixa ao vento um pranto abandonado. Porque amar é subir às nuvens do impossível, Beijando o céu distante em febre e devoção; É morrer docemente num instante indizível, Para nascer de novo dentro de outro coração. Marilândia

3 DE JUNHO

“ E nossas bocas se reconheçam — “cromo-somos” Jô Tauil _____________________ Fios da herança , pigmentos e destinos, tintas que sangram nos pergaminhos finos de dois corpos que se aconchegam e tecem. Sou feita do teu nome que me atravessa, do azul que há nos teus olhos, peregrino, és tu o tom mais fundo, mais divino, que a minha alma há tanto tempo vê promessa. Reconheço-te no vermelho do entardecer, no ocre que cobre as pedras do caminho — somos cor que anseia por se dissolver. Tuas mãos, pincel do meu viver, traçam na minha pele o seu carinho, e juntos somos um só amanhecer. Ah, mas o amor é assim — tão breve e tanto! Como a aquarela que a chuva desfaz, corremos juntos para o mesmo pranto, buscando a cor que o tempo nunca traz. E nossas bocas se reconheçam — até que a última cor em nós se faça. Marilândia

4 DE JUNHO

“Que quando quisermos serão desarquivados…” Jô Tauil ________________________ Quais sonhos que deixamos pelos velhos caminhos, Guardados em gavetas de silêncios dourados, Como cartas de amor esquecidas nos ninhos. Voltarão a cantar nas tardes de luar, Com a voz das saudades que nunca envelheceram, E as rosas que julgamos mortas no pomar Abrirão seus perfumes onde as dores viveram. Haverá no crepúsculo um clarão de esperança, Uma estrela a velar os passos da lembrança, E um rumor de violinos na distância sem fim. Então, meu coração, cansado de esperar, Há de beber a luz que vem do teu olhar Como quem bebe o céu num jardim de jasmim. Porque nada se perde quando o amor é profundo, Nem o beijo suspenso entre a sombra e o segundo, Nem a lágrima antiga que brilhou por alguém. Tudo fica a dormir nos arquivos da alma, Até que a nossa mão, suave, doce e calma, Descerre o seu segredo e o faça viver além. Marilândia

5 DE JUNHO

“Ainda que essa espera não passe de quimera.” Jô Tauil ________________________ Guardo-a em meu peito como a mais doce flor; É sonho que me embala à luz da primavera, É sombra perfumada a murmurar amor. Nas tardes sem destino em que a saudade chora, Escuto os teus passos no silêncio do além; E a alma, que te busca e te deseja agora, Faz dos astros distantes caminhos para o bem. Talvez nunca regresses dos jardins encantados Onde os anjos adormecem sobre lírios de luar; Mas os meus pobres olhos, de prantos orvalhados, Continuam, noite adentro, a tua imagem chamar. Porque amar é seguir por estradas impossíveis, Colhendo rosas brancas entre espinhos fatais; É transformar ausências em presenças sensíveis, E encontrar infinitos nos instantes mais banais. Por isso espero ainda, entre névoas e cansaços, Como espera a sereia pelo canto do mar; E levo o teu fantasma preso aos meus abraços, Como quem leva um sonho que não quer despertar. Se a quimera é mentira, bendita seja então: Pois vive dela apenas meu pobre coração. Marilândia

6 DE JUNHO

“ E nesse mundo, esse amor me basta… e pronto!” Jô Tauil __________________________ Como um jardim secreto aberto ao luar, Onde o silêncio veste um manto de encanto E ensina as estrelas o mais doce sonhar. Não quero as coroas que o destino promete, Nem as riquezas que a fortuna semeou; Quero apenas o beijo que em minha alma se repete, Como um hino suave que o teu olhar criou. Se a vida é mar revolto, sombra e neblina, Teu nome é o farol que me aponta o horizonte; E a tua voz, tão mansa, tão divina, É fonte de água pura correndo sobre o monte. Que me importam os invernos do caminho? Há primaveras inteiras dentro de um abraço; E quando pousas teu afeto no meu ninho, O mundo inteiro cabe no teu regaço. Amar-te é colher rosas sem temer espinhos, É transformar em ouro a lágrima caída; É caminhar contigo por eternos caminhos, Fazendo da esperança a mais bela jazida. E se tudo passar, num derradeiro instante, Ficará teu amor brilhando em mim, constante. Marilândia

7 DE JUNHO

“Na plenitude do amor maior do mundo…” Jô Tauil ____________________________ Encontrei-te a sorrir entre as estrelas; E o céu, que era tão vasto e tão profundo, Vestiu-se de luar para contê-las. Teus olhos eram fontes de poesia, Onde eu bebia a sede dos meus dias; E a tua voz, em doce melodia, Fazia florescer as horas frias. Amar-te foi abrir todas as portas Que o destino fechara em meu caminho; Foi dar perfume às rosas quase mortas, E transformar a ausência em doce ninho. Por ti, bordei de sonhos a alvorada, E fiz da dor um cântico sereno; Nenhuma noite foi tão desolada Que não trouxesse um astro ao meu aceno. E se a vida me negar seus esplendores, E o tempo apagar jardins e fontes, Há de bastar-me a luz dos teus amores, Brilhando e_ternamente além dos montes. Marilândia

8 DE JUNHO

“No mesmo desejo de brilhar além dos montes” Jô Tauil __________________________ Vou derramando sonhos pelas frias fontes, Como quem busca, em céus de seda e de luar, A estrela impossível que nasceu para amar. Levo nos olhos a névoa das madrugadas, E nas mãos, rosas de esperanças perfumadas; Mas cada rosa traz um espinho escondido, Como um amor que vive e morre em seu gemido. Ando perdida entre quimeras e lembranças, Vestindo a sombra delicada das distâncias; E, ainda assim, guardo no peito uma canção Que faz do pranto um rio de iluminação. Se o mundo é breve, como a flor que o vento leva, Que importa a noite, o frio, a dor, a treva? Há dentro de mim um clarão sempre aceso, Um sonho dourado, inquieto e indefeso. E quando a vida fechar seus velhos portões, Abrirei asas sobre todas as paixões; Pois quem amou com a alma inteira e sem receio Faz do infinito o derradeiro devaneio. Marilândia

COSTURANDO 9 DE JUNHO

“Entre duas nossas cercas de flores” Jô Tauil ________________________ Dormia a tarde em perfumes de mel, E os teus olhos, cheios de antigos amores, Faziam do céu um mais dourado céu. Passavam brisas de sonho e saudade, Como aves brancas sobre o arvoredo, E eu bebia a eterna claridade Que havia no teu sorriso em segredo. As rosas curvavam-se ao teu caminho, Num gesto de graça, de encanto e louvor, Enquanto eu seguia, devagarinho, A sombra divina do teu amor. Cantavam fontes no jardim silente, Versos que o vento levava ao luar, E a minha alma, humilde e transparente, Aprendia contigo a se entregar. Entre duas nossas cercas floridas, Ficou suspenso o tempo, sem fim nem dor; E desde então, nas horas mais perdidas, Moro para sempre no teu amor. Marilândia

COSTURANDO 10 JUNHO

“Com mil promessas do primeiro amor: o do Criador!” Jô Tauil ________________________ Abriu-se a aurora em meu jardim de sonho e flor. E o céu, vestido de safiras e luar, Veio em silêncio ao meu destino embalar. Nas fontes mansas do infinito recolhi As gotas puras que o Teu nome trouxe a mim. E, entre os rosais da alma que o tempo não desfez, Guardei Teus gestos como um hino de altivez. Quando a tristeza me cercou de sombra fria, Foste a canção secreta que eu ainda ouvia. E cada estrela, acesa além da imensidão, Parecia trazer Teu beijo à minha mão. Por Ti florescem os trigais da esperança, Por Ti ressurge a doce e antiga confiança. E mesmo quando o mundo em dor se desfizer, Hei de guardar o Teu perfume em meu viver. Porque és o Amor que não conhece despedida, A chama eterna iluminando a minha vida. E quando a noite me chamar para partir, Será Teu rosto que meus olhos vão seguir. Pois só em Ti, meu Deus, encontro a luz maior, O primeiro e derradeiro amor de todo amor. Marilândia