sexta-feira, 12 de junho de 2026

COSTURANDO 12 DE JUNHO

“Numa volúpia rara, pungente e pura.” Jô Tauil ___________________________ Meu coração desfolha-se em luar. Leva na voz a antiga formosura Das ondas que desaprendi de amar. Há no silêncio azul da noite fria Um perfume de sonho e de saudade, Que vem beijar a minha fantasia Com mãos de sombra e de eternidade. Teu nome é flor que nasce entre os meus ais, Lírio de fogo aberto sobre a dor; E os meus desejos, trêmulos demais, São aves procurando o teu amor. Passam estrelas pela minha estrada, Como promessas de um jardim sem fim; E cada estrela, pálida e velada, Parece um verso que escreveu por mim. Se acaso a vida é breve e passageira, Que seja breve à sombra do teu ser; Pois vale mais uma hora verdadeira Que um século sem te poder viver. E assim me entrego, doce e vencida, Ao eterno milagre de te querer na rosa jamais colhida. Marilândia

quinta-feira, 11 de junho de 2026

COSTURANDO 11 JUNHO

"Patentear o horizonte e fantasiar a miragem" Jô Tauil ____________________________________ Como quem prende a tarde num rendado véu de luar, E borda sobre o silêncio a secreta linguagem Dos sonhos que não ousaram nunca se realizar. Quero colher das estrelas o perfume do impossível, E vestir de rosas brancas a nudez da solidão; Fazer do pranto um cristal delicado e sensível, E da saudade um jardim florescendo no coração. Há uma fonte escondida nos vales da minha alma, Onde a tristeza adormece ao som de um canto distante; E uma esperança de seda, tão suave e tão calma, Que se desfaz em neblina ao toque de um instante. Ó vida, és ave errante em crepúsculos perdidos, Passas deixando nos lábios um gosto doce e mortal; Teus caminhos são tecidos de adeuses e gemidos, Teu beijo tem a doçura venenosa do ideal. Mas eu persisto sonhando os castelos da quimera, Erguendo torres de lua sobre abismos de ninguém; Pois quem nasceu para amar faz da dor sua primavera, E encontra no im_possível a razão de ir mais além. E morro em cada poema, e em cada verso renasço também. Marilândia

26 DE MAIO

“Sob um céu de acasos os sonhos estão minados” Jô Tauil ___________________________________ Como jardins de névoa em noites sem clarão. Há lírios de esperança entre os muros quebrados e um silêncio de adeus sangrando na amplidão. As horas vão caindo em círios apagados, na catedral sem voz do meu pobre coração; e os astros, um a um, cansados e exilados, morrem dentro da sombra em lenta procissão. Mas ainda guardo, entre ruínas e cansaço, a febre de te amar — derradeiro pedaço de luz que não morreu na cinza do viver. Porque até no abandono, austero e desmedido, há um perfume cruel, triste e desconhecido, que ensina a alma ferida a continuar sofrer. Marilândia Ver menos

27 DE MAIO

“Que viveu na timidez do meu amor esquivo” Jô Tauil ___________________________ Que viveu na timidez do meu amor esquivo, Que guardei como guarda o mar um navio morto, Que sonhei nos instantes em que o peito aflito Procurava nas sombras um improvável porto. Que fiz meu, que escondi debaixo da candura, Que tremi ao sentir que me escapava os dedos, Que chorei na solidão da minha noite escura Entre rezas que guardei e não ditos segredos. Que foi tudo e foi nada e foi a minha vida, Que me deu a coragem de nunca te pedir, Que ficou para sempre a meia-luz ferida, Esse amor que aprendi a amar sem te sentir. Que me fez pequenina e grande e desterrada, Que me pôs nos lábios sal ao invés de mel, Esse amor que viveu — e eu que fui amada Só por mim, só de mim, sob o mesmo céu. Marilândia

28 DE MAIO

“Hoje cato de mim caco a caco” Jô Tauil _______________________ recolho os meus pedaços pelo chão, sou eu mesma o espelho que eu destaco e a mão que apanha a própria destruição. Fui inteira uma vez — talvez num sonho — antes de me perder em tanto amor, agora sou este torpe abandono, este canto partido e sem calor. Procuro-me nos olhos que me viram, nas bocas que um dia me chamaram bela, nas vozes que me amaram e partiram levando cada sílaba da cancela. Mas junto os cacos, coso-os com os dedos, faço de mim uma outra donzela guardo nos olhos os últimos segredos e sou, partida, a mais inteira dela. Marilândia

29 DE MAIO

“Aceitando os frutos verdes que colhemos” Jô Tauil ___________________________ Como quem beija espinhos por amor, seguimos pela estrada onde colhemos as rosas sem perfume e sem fulgor. Teus olhos têm névoas de outono, e os meus, luas cansadas de esperar; há um sino triste em cada sonho tocando eternamente sobre o mar. Aceitamos a dor como se fosse um vinho antigo em taças de cristal, e o beijo que nasce da nossa fome morre em nossa boca, desigual. Às vezes penso: amar é ter nas mãos um pássaro ferido a estremecer, é querer transformar em primavera o inverno que insiste em florescer. Mas mesmo entre ruínas e silêncios, eu guardo a tua sombra em meu jardim; pois há frutos amargos que alimentam a alma que nasce para o sem-fim. E se a vida nos dá tão pouca aurora, fazemos do crepúsculo um altar; aceitando os frutos verdes da hora, aprendemos chorando a nos amar. Marilândia

30 DE MAIO

“Vale ainda pelas mil espadas empunhadas” Jô Tauil ___________________________ Pelos sonhos que tombaram sem perdão, Pelas noites de amarguras desfolhadas, Nos jardins silenciosos do coração. Vale ainda pelas lágrimas perdidas, Que o tempo não soube jamais enxugar, Pelas rosas de esperança adormecidas, À espera de uma aurora para as despertar. Vale ainda pelos beijos não vividos, Que morreram na distância e no luar, Pelos versos entre sombras escondidos, Que ninguém chegou a ouvir nem declamar. Vale ainda pelas mãos desencontradas, Que o destino separou sem piedade, Pelas almas para sempre entrelaçadas, Mesmo além dos véus da ausência e da saudade. Vale ainda, meu amor, por tua lembrança, Que floresce onde o inverno fez morada, Pois o amor é a última esperança, Das estrelas quando a noite é consumada. Marilândia