quinta-feira, 11 de junho de 2026

26 DE MAIO

“Sob um céu de acasos os sonhos estão minados” Jô Tauil ___________________________________ Como jardins de névoa em noites sem clarão. Há lírios de esperança entre os muros quebrados e um silêncio de adeus sangrando na amplidão. As horas vão caindo em círios apagados, na catedral sem voz do meu pobre coração; e os astros, um a um, cansados e exilados, morrem dentro da sombra em lenta procissão. Mas ainda guardo, entre ruínas e cansaço, a febre de te amar — derradeiro pedaço de luz que não morreu na cinza do viver. Porque até no abandono, austero e desmedido, há um perfume cruel, triste e desconhecido, que ensina a alma ferida a continuar sofrer. Marilândia Ver menos

27 DE MAIO

“Que viveu na timidez do meu amor esquivo” Jô Tauil ___________________________ Que viveu na timidez do meu amor esquivo, Que guardei como guarda o mar um navio morto, Que sonhei nos instantes em que o peito aflito Procurava nas sombras um improvável porto. Que fiz meu, que escondi debaixo da candura, Que tremi ao sentir que me escapava os dedos, Que chorei na solidão da minha noite escura Entre rezas que guardei e não ditos segredos. Que foi tudo e foi nada e foi a minha vida, Que me deu a coragem de nunca te pedir, Que ficou para sempre a meia-luz ferida, Esse amor que aprendi a amar sem te sentir. Que me fez pequenina e grande e desterrada, Que me pôs nos lábios sal ao invés de mel, Esse amor que viveu — e eu que fui amada Só por mim, só de mim, sob o mesmo céu. Marilândia

28 DE MAIO

“Hoje cato de mim caco a caco” Jô Tauil _______________________ recolho os meus pedaços pelo chão, sou eu mesma o espelho que eu destaco e a mão que apanha a própria destruição. Fui inteira uma vez — talvez num sonho — antes de me perder em tanto amor, agora sou este torpe abandono, este canto partido e sem calor. Procuro-me nos olhos que me viram, nas bocas que um dia me chamaram bela, nas vozes que me amaram e partiram levando cada sílaba da cancela. Mas junto os cacos, coso-os com os dedos, faço de mim uma outra donzela guardo nos olhos os últimos segredos e sou, partida, a mais inteira dela. Marilândia

29 DE MAIO

“Aceitando os frutos verdes que colhemos” Jô Tauil ___________________________ Como quem beija espinhos por amor, seguimos pela estrada onde colhemos as rosas sem perfume e sem fulgor. Teus olhos têm névoas de outono, e os meus, luas cansadas de esperar; há um sino triste em cada sonho tocando eternamente sobre o mar. Aceitamos a dor como se fosse um vinho antigo em taças de cristal, e o beijo que nasce da nossa fome morre em nossa boca, desigual. Às vezes penso: amar é ter nas mãos um pássaro ferido a estremecer, é querer transformar em primavera o inverno que insiste em florescer. Mas mesmo entre ruínas e silêncios, eu guardo a tua sombra em meu jardim; pois há frutos amargos que alimentam a alma que nasce para o sem-fim. E se a vida nos dá tão pouca aurora, fazemos do crepúsculo um altar; aceitando os frutos verdes da hora, aprendemos chorando a nos amar. Marilândia

30 DE MAIO

“Vale ainda pelas mil espadas empunhadas” Jô Tauil ___________________________ Pelos sonhos que tombaram sem perdão, Pelas noites de amarguras desfolhadas, Nos jardins silenciosos do coração. Vale ainda pelas lágrimas perdidas, Que o tempo não soube jamais enxugar, Pelas rosas de esperança adormecidas, À espera de uma aurora para as despertar. Vale ainda pelos beijos não vividos, Que morreram na distância e no luar, Pelos versos entre sombras escondidos, Que ninguém chegou a ouvir nem declamar. Vale ainda pelas mãos desencontradas, Que o destino separou sem piedade, Pelas almas para sempre entrelaçadas, Mesmo além dos véus da ausência e da saudade. Vale ainda, meu amor, por tua lembrança, Que floresce onde o inverno fez morada, Pois o amor é a última esperança, Das estrelas quando a noite é consumada. Marilândia

31 DE MAIO

“Vira fumaça e promessa aguardada” Jô Tauil ________________________ O sonho que guardei no coração, Tão frágil como a luz da madrugada Que foge antes da primeira oração. Fui eu quem quis acreditar demais, Fui eu quem deu ao vento o que era meu, E agora busco em cinzas o que há De tudo aquilo que um dia floresceu. Ah, que loucura a de se amar assim! Entregue, toda, sem guardar um véu, Sem perguntar se tinha lá um fim Esse caminho que nos dois perdeu. Sou a mulher que aguarda e que padece, Que bebe o fel e chama o fel de mel, Que chora quando a noite a envolve e cresce E ainda sorri ao sol mais cruel. Mas sou também a chama que não morre, O grito mudo que o silêncio abriga, A alma que desaba e se socorre No verso eterno que a si mesma intriga. Marilândia

1 DE JUNHO

“No arco-íris do nascente dia!” Jô Tauil ______________________ Pousei meus sonhos sobre a claridade, Como quem busca, em doce romaria, Um porto azul na eterna saudade. Vestiaa aurora um manto de ouro fino, Bordado à luz das lágrimas do mar, E o vento, peregrino e cristalino, Vinha meu nome em segredo murmurar. Colhi nas flores o perfume incerto Das ilusões que o tempo não desfez, E vi teu vulto, tão distante e perto, Passar na névoa pálida da ve Então meu peito, ave de asas feridas, Abriu-se inteiro ao sol do teu olhar, Como se todas as passadas vidas Voltassem, mansas, para me encontrar. Mas foi miragem de um jardim sonhado, Lírio de espuma sobre o azul do além; E eu fiquei, coração ajoelhado, Amando a sombra de quem nunca vem. Marilândia