sexta-feira, 15 de maio de 2026

20 DE FEVEREIRO

Jô Tauil ________________________ Era preciso que eu me despisse da alma, Que rasgasse por dentro aquela calma Fingida, e o meu silêncio com tanto assombro… Era preciso ser a que se afronta Com o espelho cruel, sem qualquer vivalma, A que chora sozinha e não se acalma, A que arde e não sabe o que desponta… Que eu fosse nua — não de carne apenas — Mas nua de ilusões, de cenas vãs, De tudo quanto finge e não se entrega. E tu viesses assim, cheio de penas, Mas o encontro não veio — ficou suspenso Entre o que eu quis dizer e o que calei, Entre a mulher que fui e a que inventei, Perdida nesse abismo negro e tão intenso. Marilândia

COSTURANDO 21 DE FEVEREIRO

Jô Tauil ________________________ Sou o perfume eterno de uma flor que já morreu, O eco de uma voz que o vento dispersou e não voltou, A sombra de um amor que nunca se completou. Sou feita de silêncios e de noites estreladas, De beijos não colhidos e de mãos desamparadas, Carrego nos meus olhos todo o pranto do universo, E no peito, um jardim de angústia — meu verso. Que importa se me perco neste mar sem horizonte? Que importa se a minha alma é uma ferida aberta? Sou princesa e mendiga, sou rainha e sou serva, Sou a dor que se inflama e a cinza que se reserva. Quisera ser o sol que a tudo aquece e ilumina, Mas sou apenas brasa sob a noite cristalina, Centelha que se apaga antes de tocar a aurora, Mulher que ama demais e que por isso sempre chora. Ah, vida, que és tu senão esta chama que vacila? Que és tu senão a sombra daquilo que nos falta? Corola de claridade numa chama apagada — Sou tudo e nada, nada — e nesse nada, não mais que desolada. Marilândia

COSTURANDO 16 DE FEVEREIRO

ô Tauil _________________________ Eis que Os teus olhos ainda guardam o brilho que perdi, Que o silêncio entre nós não se tornou frio e sombrio, Que ainda existe um nós no que restou de ti e de mim. Fingirei que não vejo as ruínas do que construímos, Que cada palavra tua não me corta como lâmina afiada, Que o teu partir não deixou em mim apenas destroços, Que ainda pulsa viva a chama que julgava apagada. Mentirei aos meus olhos para não verem a verdade, Direi ao coração que volte a crer no teu regresso, Vestirei de ilusão esta dor que me consome inteira, Para não sentir o peso deste amor que é meu apreço… E fingirei sorrir quando pronuncias outro nome, Que não sangra esta alma ao ver-te nos braços alheios, Que posso respirar sem que o ar me falte aos pulmões, Que não morro por dentro nestes desertos e anseios. Mas sei que o fingimento é só veneno disfarçado, Que prolonga a agonia do que já deveria morrer, Que o amor que ruiu jamais se ergue do seu escombro, E que esta mentira piedosa me impede de renascer. Marilândia

COSTURANDO 18 DE FEVEREIRO

Jô Tauil _____________________________ E o sonho que eu guardava já não tem calor, Vivo a mendigar um beijo ou um grito, Qualquer coisa que me lembre que há amor. Rasguei de mim o véu de ilusão que eu vesti, E fiquei nua, à mercê do vento e da dor, Já não sei quem sou, já não sei o que perdi, Sei apenas que a saudade é a minha cor. Fui rainha de um reino que nunca existiu, Princesa de um conto que ninguém escreveu, Toda a glória que prometi em mim morreu. E o mundo que eu amei em cinzas se partiu, Ficou só esta noite imensa que me absorveu E este coração que sofre e que é meu. Ah, mas quem me dera ainda poder crer Que há um verso de luz no fim de tanto escuro, Que o amor que me fugiu pode voltar a ser, Que não é tarde demais e que o amanhã não é impuro.​​​​​​​​​​​​​​​​ Marilândia

COSTURANDO 23 DE FEVEREIRO

Vivo de sonhos feitos de luz e de ilusão, Sou a alma que arde e chora sem razão, Borboleta presa dentro do meu coração. Que importa o mundo se eu mesma sou o mundo? Que importa o mar se trago o mar profundo? Sou o grito rouco, o silêncio vagabundo, A chama que devora tudo num segundo. Eu quero amar como ninguém sabe amar, Com as mãos abertas, com o peito a sangrar, Com a alma nua entregue ao luar. Mas o amor é um deus cruel e mentiroso, Que passa como vento misterioso, Deixando o coração vazio e silencioso. Ah, ser mulher é ser a dor inteira! É ser a noite, a névoa, a primavera, É ser a rosa e ser a própria espinheira. No fantástico colorido que me habita, Sou rainha, sou mendiga, sou maldita, Sou a voz que clama, arde, chora e grita. Marilândia

COSTURANDO 27 DE FEVEREIRO

Jò Tauil _________________________ Guardo nos olhos toda a luz perdida, Como se a alma, de si mesma difusa, Fosse uma chama a cada instante garrida. Sou a mulher que o vento não trucida, Que bebe o mar e morre ressurgida… Princesa triste, louca, ilusionista, De amor que nunca teve despedida. Há pétalas que caem sem ter nome, Há beijos que o silêncio não consome, Há noites que a saudade não redime. E eu, que de sonhos vivo do que é sublime. Busco no ar algum perdido perfume De tudo aquilo que jamais se exprime. Florei em vão num jardim sem outono, Amei demais o que não teve abandono. Fui rainha de um reino sem trono, Mendiga de carinho e de afeto. Agora resta apenas este pranto — Ser toda a dor e ainda assim ser encanto. Marilândia

COSTURANDO 7 DE MARÇO

Jô Tauil ________________________ Na varanda pálida do meu destino; a noite abre os braços como estrada onde escorre teu nome peregrino. O vento traz murmúrios da saudade como um sino chorando na distância; e meu peito, rendido à eternidade, arde lento na tua lembrança. Há estrelas cansadas no meu pranto, há perfumes de lírios no meu cansaço; pois amar-te é beber do mesmo encanto que me prende perdida em teu abraço. Se demoras, amor, morro de espera como a rosa que o inverno desfalece; minha alma, silenciosa sentinela, à tua sombra fiel permanece. Vem! Que a aurora já treme na janela e o meu sonho por ti se fez clarão — pois na ausência que a noite me revela bate em chamas meu pobre e frágil coração. Marilândia