"Como dar vida ao botão que nem se abriu e já fenece?"
Jô Tauil
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Se trazia em cada pétala um amor que ninguém conhece...
Como salvar do crepúsculo o sonho que amanheceu,
Se o beijo que o desejava jamais aconteceu?
Há pétalas que estremecem ao sopro de uma paixão,
E guardam, trêmulas, segredos no fundo do coração;
Há desejos que se calam, por medo de se entregar,
E lábios que morrem de sede à espera de um beijar.
Meu coração, tão insensato, ainda pergunta: por quê,
Se havia tanto desejo querendo nascer e viver?
Por que a noite recolhe o que a aurora prometeu,
Se o fogo que nos queimava sequer se acendeu?
Talvez amar seja um sonho que a própria razão condena,
Uma doce ferida de amor, tão amarga e serena;
E eu, que te quis em silêncio, com febre e devoção,
Fiz do desejo im_possível a mais ardente oração.
Se o botão não se abriu, guardou seu perfume em mim,
Como um beijo interrompido que não conhece o fim,
E talvez, noutra vida, quando o destino disser sim,
A flor que morreu no desejo venha florescer em mim.
Marilândia
Como dar vida ao botão que nem se abriu e já fenece,
Se trazia em cada pétala um amor que ninguém conhece?
Quem há de salvar do inverno a flor que a noite desfolhou,
Se o beijo que a despertava nos meus lábios se calou?
Havia em teus olhos um incêndio que me chamava,
E em minha boca um segredo que por teu beijo esperava;
Mas o tempo, cruel amante, entre nós se interpôs,
E deixou somente a ânsia do que não aconteceu entre nós.
Ah, como dói o desejo que nasce para não ter fim,
A carícia que não houve, mas ainda arde em mim!
Há abraços que nunca existiram, mas sabem acariciar,
E corpos que, mesmo distantes, continuam a se procurar.
Eu te quis com a loucura das noites sem luar,
Com a febre de quem ama sem coragem de confessar;
E fiz do meu próprio silêncio um altar de paixão,
Onde ainda queima, intacta, a chama do coração.
Se o botão não se abriu, não morreu o seu perfume:
Há desejos que a distância nem o tempo consome.
E se a vida nos negar a primavera que sonhei,
Em outra existência, amor, por ti florescerei.