quarta-feira, 20 de maio de 2026

COSTURANDO DIA 19

“Guardiães de um futuro que não chegou para nós” Jô Tauil ___________________________ Velamos na penumbra o sonho que ficou, Como quem guarda em cofres a memória de uma voz Que prometeu chegar — e nunca mais voltou. Somos feitos de esperanças que o tempo devorou, De manhãs que acenaram com luz entre as estrelas, De portas que entreabriam e o vento as arrastou, E de amores que foram borboletas belas. Que valem os nossos braços abertos para o ar Se o ar que nos envolvia se foi sem me dizer? Que vale o nosso anseio ardente de amar Se o amor é apenas a saudade do ser? Somos todos guardiães do que nunca possuímos, Reis e rainhas de um castelo erguido sobre o nada, Das promessas solenes que um dia repetimos À lua — essa senhora tão bela e tão cansada. Carregamos nos olhos o peso do que esperamos Nos lábios, o silêncio de tudo o que calamos No peito, uma ferida tão funda que preferimos Chamar-lhe de saudade — e fingir que não choramos… Guardiães de um futuro — que bela ilusão! O futuro é unicamente uma chama que a própria mão apaga. Marilândia

COSTURANDO DOA 20

“Num indescritível e prazeroso verso” Jô Tauil _________________________ Guardei o que meus lábios não disseram, As ânsias que nos sonhos se perderam E o amor que se fez eterno e controverso. Sou feita de tormento e de universo, De noites que em silêncio me liquefizeram De mãos que me tocaram e partiram E de um querer profundo e submerso. Vivo à beira do abismo, desejosa, Com a alma nua, trêmula e saudosa, À espera de um amor que não chegou. Sou carne, sou pecado, souvontade, Sou toda a dor, sou toda a tempestade, Sou o grito de tudo que se calou. Marilândia

segunda-feira, 18 de maio de 2026

18 DE MAIO 2026 COSTURANDO

“De tão doce fragrância revelada” Jô Tauil _________________________ Minha alma desperta, ferida e nua, como rosa que sangra sob a lua e se oferece ao vento — abandonada. Sou a noite que em si mesma se enleia, o perfume que fica quando a flor se vai, o eco de um amor que nunca cai mas vive na saudade que nos enfeia. Que delírio me envolve e me seduz? Que veneno tão doce me consome? Bendito o ser que sofre e que se consome na chama que é ao mesmo tempo cruz. Eu sou feita de anseios e de névoa, de beijos que jamais tocaram boca, de uma ternura louca que provoca o pranto — e ainda assim não me alivia. Mas há em mim, senhora desta dor, uma beleza torpe e soberana: a de saber que toda chaga humana é pétala caída de uma flor. Marilândia

18 DE MAIO 2026

“O meu próprio valor é o que agora emano” Jô Tauil _________________________ Como um perfume antigo abrindo-se em segredo; Já não mendigo estrelas ao céu desumano, Nem beijo sombras frias por medo. Trago nas mãos a febre das rosas tardias, E um luar de veludo dormindo nos cabelos; Meus olhos são navios de melancolias Que atravessam o silêncio dos castelos. Fui lágrima perdida em jardins de abandono, Ave ferida à beira das noites sem fim; Mas hoje há ouro triste florindo no outono Das ilusões que morreram dentro de mim. Meu peito é uma harpa de soluços profundos, Que o vento da saudade aprende a dedilhar; E os astros, escutando meus íntimos mundos, Curvam-se lentamente ao meu sonhar. Já não peço ao amor promessas impossíveis, Nem coroas de névoa, nem jardins irreais; Sou chama acesa entre ruínas sensíveis, Pois quem é luz em si, nem sombra pode apagar Marilândia

domingo, 17 de maio de 2026

21 de março 2026

___________________________ Que me ferem sem sangue, sem rumor, São as horas por ti não esperadas, O silêncio vestido de rancor. Sou a chama que morre abandonada, O jardim que ninguém mais quer colher, A palavra no ar — desabitada — E o nome que esqueceste de dizer. Que adianta ser bela, ser ardente, Se o teu olhar me passa indiferente Como vento que ignora a própria flor? Sou rainha de um reino que não existe, Mendiga de um amor que só persiste No fundo pobre e vão do meu clamor. Cada dia que passa é uma ferida, Cada noite um punhal que entra devagar, E eu, sempre eu — tão louca, tão perdida — A amar quem nunca soube me olhar. Arde em mim essa chama divina: Ser toda dor — e ainda assim, menina. Marilândia

11 de abril

Jô Tauil ______________________ Eu rasgo o véu do tempo com as mãos nuas, E bebo o mel amargo das luas Num êxtase que dói, profundo e denso. Sou feita de desejo e de silêncio, De noites que se abrem como grutas, De rosas que florescem entre lutas, De um amor que arde e nunca recompensa. Que importa o que me fere ou que me mata? A vida é este fogo que me trata Como brasa que queima e que fascina. Quero tudo — o céu, o mar, o vento! Quero ser o mais alto pensamento Que uma alma apaixonada imagina. Sou a Senhora do meu próprio pranto, Rainha coroada de saudade, Que chora em verso a sua imensidade E transforma a dor num acalanto… Dessarte, a morte, quando vier, será meu canto. Marilândia

13 de abril

________________________ Com dias feitos só de luz e ardor, Onde cada hora seja um oratório Que entoe, grave, o hino do nosso amor. Não me importam as leis do mundo vário, Nem os relógios frios sem calor — O tempo é teu sorriso solitário, É a tua mão que afasta a minha dor. Janeiro nasce quando me abraças, E o verão floresce nas tuas graças, Mesmo quando setembro traz a chuva. Ah! que me importa o mundo lá de fora, Se em ti encontro a lua, o sol, a aurora, E tudo quanto a vida nos renova? Os meses são suspiros que se perdem, As semanas são véus que nos cercam, Mas os instantes teus jamais se escondem — São chamas que em mim sempre recomeçam. Meu amor, sejas tu o meu alento, O único e eterno cronista silencioso da vida que sinto. Marilândia