domingo, 17 de maio de 2026

21 de março 2026

___________________________ Que me ferem sem sangue, sem rumor, São as horas por ti não esperadas, O silêncio vestido de rancor. Sou a chama que morre abandonada, O jardim que ninguém mais quer colher, A palavra no ar — desabitada — E o nome que esqueceste de dizer. Que adianta ser bela, ser ardente, Se o teu olhar me passa indiferente Como vento que ignora a própria flor? Sou rainha de um reino que não existe, Mendiga de um amor que só persiste No fundo pobre e vão do meu clamor. Cada dia que passa é uma ferida, Cada noite um punhal que entra devagar, E eu, sempre eu — tão louca, tão perdida — A amar quem nunca soube me olhar. Arde em mim essa chama divina: Ser toda dor — e ainda assim, menina. Marilândia

11 de abril

Jô Tauil ______________________ Eu rasgo o véu do tempo com as mãos nuas, E bebo o mel amargo das luas Num êxtase que dói, profundo e denso. Sou feita de desejo e de silêncio, De noites que se abrem como grutas, De rosas que florescem entre lutas, De um amor que arde e nunca recompensa. Que importa o que me fere ou que me mata? A vida é este fogo que me trata Como brasa que queima e que fascina. Quero tudo — o céu, o mar, o vento! Quero ser o mais alto pensamento Que uma alma apaixonada imagina. Sou a Senhora do meu próprio pranto, Rainha coroada de saudade, Que chora em verso a sua imensidade E transforma a dor num acalanto… Dessarte, a morte, quando vier, será meu canto. Marilândia

13 de abril

________________________ Com dias feitos só de luz e ardor, Onde cada hora seja um oratório Que entoe, grave, o hino do nosso amor. Não me importam as leis do mundo vário, Nem os relógios frios sem calor — O tempo é teu sorriso solitário, É a tua mão que afasta a minha dor. Janeiro nasce quando me abraças, E o verão floresce nas tuas graças, Mesmo quando setembro traz a chuva. Ah! que me importa o mundo lá de fora, Se em ti encontro a lua, o sol, a aurora, E tudo quanto a vida nos renova? Os meses são suspiros que se perdem, As semanas são véus que nos cercam, Mas os instantes teus jamais se escondem — São chamas que em mim sempre recomeçam. Meu amor, sejas tu o meu alento, O único e eterno cronista silencioso da vida que sinto. Marilândia

17 de abril

______________________ Vaguei por labirintos que ninguém mais percorreu, Carregando nos ombros toda a minha perdição, Num mundo que sorriu — e depois me esqueceu. Sou feita de silêncio e de noites sem estrela, De mãos que se estendem e não tocam ninguém, De uma alma que grita dentro de uma janela Fechada para a vida e para o que ela contém. Que importa se o amor passou como a brisa fria? Que importa se os meus olhos já não sabem chorar? Eu sou toda a saudade, toda a melancolia, Uma vela que teima em não se apagar. Fui rainha de um reino que não tinha fronteira, Mendiga de um afeto que jamais encontrei, Andei por esta vida como quem não a espera, E perdi-me em mim mesma — e assim fiquei. Desabitada, sim — mas cheia de quem fui, De sonhos que morreram antes de florescer, Sou tudo quanto amei e tudo quanto fugi: Uma mulher que aprendeu a sobreviver sem viver. Marilândia

1 de abril

“Sonhos mortos, lavados e levados com sutileza” Jô Tauil ___________________________ Como pétalas que o vento arranca sem piedade, Fui tecendo de sombra e de beleza Os véus dourados da minha mocidade. Quis amar o impossível, quis ser toda — Ser o mar, ser a luz, ser o infinito — Mas a vida fechou-se porta a porta E restou-me este fundo de granito. Sou mulher e sou noite e sou lamento, Sou a voz que se perde no horizonte, Carrego nos pulsos o peso do tormento E bebo a própria dor como uma fonte. Que importa se os sonhos se desfizeram? Ainda tenho este peito que arde e chora, Ainda sangram as flores que morreram Nesta alma que o mundo nunca aflora. Morri tantas vezes que já sei morrer — E ainda assim, teimosa, volto à vida, Pois sou feita do anseio de viver E da dor mais perfeita e mais querida. Marilândia

15 DE ABRIL

Jô Tauil ___________________________ Rego teus silêncios com ternura, e planto em cada ausência uma canção que nasce da saudade mais pura. Mesmo que o sonho sangre em vão, e a noite vista luto na janela, há um luar que insiste, na contramão, em beijar minha dor tão singela. Trago nos olhos um pranto calado, feito de estrelas que não mais brilham, mas no meu peito, ainda encantado, teus passos na memória cintilam. Ah, se esse amor é sombra e desalento, por que floresce em mim como destino? Por que resiste ao tempo e ao vento, feito um suspiro divino? Mesmo que tudo se perca na ilusão, e o mundo negue esse sentir profundo, hei de guardar, na palma da mão, teu nome — eterno — além deste mundo. Marilândia

18 DE ABRIL

Jô Tauil _______________________ Eis que sou feita de sopro e de ardor, de mãos que tremem, lágrimas que miram o abismo fundo de um antigo amor. Não me esculpas em mármore frio, não me faças estátua nem altar — sou água viva, correnteza, rio, que não se pode prender nem refrear. Fui feita para o pranto e para a glória, para amar em excesso e em perdição, não para ser apenas uma história gravada em pedra sem palpitação. Os monumentos calam, eu proclamo! Os monumentos ficam, eu me vou — mas levo no peito aquele mesmo ramo de paixão louca que me traçou. Prefiro a chama breve ao eterno gelo, prefiro o voo ao mármore parado. Que me enterrem no vento — mais belo morrer amando do que ter eternizado. Marilândia