COSTURANDO DIA 19
“Guardiães de um futuro que não chegou para nós” Jô Tauil ___________________________ Velamos na penumbra o sonho que ficou, Como quem guarda em cofres a memória de uma voz Que prometeu chegar — e nunca mais voltou. Somos feitos de esperanças que o tempo devorou, De manhãs que acenaram com luz entre as estrelas, De portas que entreabriam e o vento as arrastou, E de amores que foram borboletas belas. Que valem os nossos braços abertos para o ar Se o ar que nos envolvia se foi sem me dizer? Que vale o nosso anseio ardente de amar Se o amor é apenas a saudade do ser? Somos todos guardiães do que nunca possuímos, Reis e rainhas de um castelo erguido sobre o nada, Das promessas solenes que um dia repetimos À lua — essa senhora tão bela e tão cansada. Carregamos nos olhos o peso do que esperamos Nos lábios, o silêncio de tudo o que calamos No peito, uma ferida tão funda que preferimos Chamar-lhe de saudade — e fingir que não choramos… Guardiães de um futuro — que bela ilusão! O futuro é unicamente uma chama que a própria mão apaga. Marilândia
