"Deixemos sobre o mármore o coração"
Jô Tauil
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Qual lírio branco ao pé do esquecimento...
Que a pedra embale, em muda compaixão,
O doce e longo adeus do sentimento.
Amar foi transformar a própria vida
Num cálice de lágrimas e estrelas;
Foi dar à noite a luz desconhecida
E às mãos do sonho a graça de colhê-las.
Se a morte vier com seu luar de espuma,
Há de encontrar-nos presos num só beijo,
Feitos perfume de uma branca bruma.
Pois nada vence o fogo do desejo,
Quando uma alma na outra se resume
E Deus consagra o amor no seu lampejo.
Marilândia
OUTRA VERSÃO
Deixemos sobre o mármore o coração,
Como um sacrário aberto ao desalento;
Que a pedra guarde, em muda comunhão,
As cinzas luminosas do tormento.
Despe-me a alma... Não o corpo apenas;
Há véus mais nus que a seda e o linho fino.
Quero beijar-te as mágoas mais serenas
Como quem unge um santo peregrino.
Em teus cabelos dorme a noite inteira,
Perfumada de mirra e de jasmim;
E a Lua, pálida monja derradeira,
Reza silenciosamente por mim.
Nos teus braços esqueço a própria morte,
Que se ajoelha humilde ao nosso ardor;
Pois há um destino mais profundo e forte
Que o breve império efêmero da dor.
Se o mundo nos condena, pouco importa;
Nunca entendeu o incêndio de quem ama.
Há uma eternidade em cada porta
Que se abre ao sopro de uma única chama.
Quando o silêncio enfim nos envolver,
E o tempo desfizer toda ilusão,
Hão de os anjos curvar-se para ler
O nosso amor gravado no mármore do coração.
Deixemos sobre o mármore o coração,
Como um cálice exausto de ternura;
Que a pedra beba a última ilusão
E faça da saudade uma escultura.
Não chores... Cada lágrima perdida
É pérola que o sofrimento cria;
Quem ama entrega, inteira, a própria vida
Ao altar secreto da melancolia.
Beija-me ainda, à beira do abandono,
Como se o mundo fosse terminar;
Há um céu de cinzas sobre o nosso outono,
Mas outro céu insiste em nos chamar.
Que importa se a esperança se fez breve?
Se a noite veste os lírios de negrume?
O amor, quando é divino, nunca deve
Temer o inverno nem perder perfume.
Se a morte vier, que venha docemente,
Vestida com teu rosto e teu calor;
Pois morrerei sorrindo, serenamente,
Se em teus braços repousar o meu amor.
E quando o tempo apagar nossa memória,
Florirão jasmins sobre a solidão;
Porque nenhum destino vence a glória
De quem deixou, no mármore, o coração
Deixemos sobre o mármore o coração,
Como quem depõe um lírio ao esquecimento;
Que o frio da pedra guarde a paixão
Que já não cabe no peito nem no pensamento.
Se o beijo morreu nas dobras da saudade,
Ainda perfume há nas rosas do sofrer;
Pois quem amou conhece a eternidade
Mesmo quando aprende, em silêncio, a morrer.
Trazes nos olhos a luz do meu destino,
E eu trago nos meus a noite que ficou;
Entre nós canta um distante desatino
Que nem o tempo, impiedoso, sepultou.
Ama-me ainda, embora seja tarde,
Embora o outono desfolhe a nossa flor;
Há cinzas que ocultam um incêndio que arde
Com mais fervor que o primeiro amor.
Deixemos sobre o mármore o passado,
Como um rosário de lágrimas sem fim;
Que Deus recolha este sonho abandonado,
E faça nascer outro céu dentro de mim.