sexta-feira, 15 de maio de 2026

COSTURANDO 15 DE MAIO

“Sorvamos o néctar bendito desta ventura” Jô Tauil ______________________ Qual fluido magnético, secreto Resplendendo num cataclisma, palpitante,inquieto No esplendor de teu corpo que tortura... E de tal forma se arrasta numa cadência Ascendendo às profundas plagas, Vivendo numa oculta florescência De sonhos e lágrimas em ressacas... Eis que em mórbidos quebrantos Em soluços, soluços,crivados Sente-se que a dor menos viva Nua, sem sol e sem sombra aviva. Assim, numa visão consoladora da saudade Ânsias e desejos de velhas chagas, Despertando em nós tal plêiade Num perfeito esplendor in_definido de mágoas. Marilândia

COSTURANDO 29 DE ABRIL

“Mas ainda faço-te concreto na minha abstração.” Jô Tauil _________________________ Como um vulto de luar que a saudade desenha; és silêncio que arde em secreta combustão e a sombra que em mim eternamente se empenha. És verso suspenso em febril devoção, eco antigo que o tempo jamais desdenha; um sonho bordado na minha solidão, uma ausência que insiste e que me acompanha. Trago-te em mim como um lírio ferido, pálido de espera e de doce agonia; és o nunca que vive no já vivido, és o sempre que morre em cada dia. Ah, se ao menos fosses carne e destino, se ao toque te fizesse enfim verdade, mas és névoa de um querer peregrino que se perde nas ruas da eternidade. E assim te invento — febre, ilusão — meu amor im_possível! Marilândia

COSTURANDO 7 DE MAIO

Jô Tauil ______________________ Como luz que treme e some no horizonte frio, E em mim ressoa o eco de um amor errante Que chora, sozinho, à beira de um rio. Teu nome é uma ferida que não quer sarar, Uma rosa sangrando entre dedos de sombra, Sou a noite que espera sem poder chorar, E és tu — chama breve que tudo assombra. Que importa a distância se és minha, alma minha? Se te guardo inteiro dentro do meu peito ardente? Sou mulher que ama e que sofre e que se definha Num querer que é loucura, que é fogo, que é silente… Ah, quanto me custa fingir que não te quero! Que o teu rosto não habita o meu silêncio! Sou nau perdida em mar cruel e severo, Morrendo de um amor vasto e imenso. Então vejo teu vulto _lindo, sempre lindo!_ E minha alma parte em pedaços de saudade. Vivo de te amar sem fim, te perseguindo Nesta fatídica e desventurada fatalidade. Marilândia

30 DE ABRIL 2026

“Embora meio desmemoriados…” Jô Tauil ________________________ Guardamos ainda o cheiro dos teus cabelos, o peso dos abraços mal dados, o eco perdido dos nossos pesadelos. Havia em nós uma sede antiga de sermos amados além do que somos, de encontrar na dor que nos obriga, algum sentido nos passos que competimos. Fui tua, como a noite é do luar — entregue e vasta, sem bordas nem nome. E tu foste meu sem me encontrar, como a brasa que queima e que some. Mas que vale a memória que mente? Que vale o amor que não sabe ficar? Somos dois sonhos de água corrente, dois rios que nunca hão de se encontrar. Oh, quanta beleza neste morrer lento de quem amou demais e não soube dizer — apenas ficou o vago tormento e a saudade enorme de te rever. Marilândia

1 de maio 2026

“Chorando comigo, esse choro tão antigo…” Jô Tauil _____________________ Lágrima que já nasceu do que não tem nome, Voz que a noite bebe, a solidão consome, E que eu carrego como um voto, como um estigma! Choro de tanto amar o que me foi inimigo, De tanto abrir a mão ao vento que me some, De tanto ter chamado por um bem que não tem nome, Sequer a sombra fria de um fugaz abrigo. Sou a mulher que chora e não sabe por quê, Que beija o pó da estrada onde ninguém a vê, Que estende os braços brancos à distância e ao vento. Tenho nos olhos toda a chuva de outro mar, Tenho nos lábios tudo o que não pude dar, E no peito essa dor — que é a minha e é o meu tormento. Chorando comigo, esse choro que não passa! Que é rio e é sepulcro e é reza e é quase nada, Que nasce quando a alma se sente abandonada E o amor que se queria era apenas fumaça. Que seja, pois, meu pranto a única saudade, Que a dor, ao menos, seja minha liberdade. Marilândia

3de maio 2026

“Num triste efeito dos desencontros…” Jô Tauil _____________________ Afogo em lágrimas o que fui um dia, e choro, ó noite, os meus amores mortos como se chora a última alegria. Há um silêncio enorme nas horas tortas que habitam o lugar onde vivia e as rosas que plantei — já todas mortas — perfumam ainda a dor que me esvazia. Fui tua e não o soube! Fui teu beijo perdido entre os caminhos que escolheste, névoa que se desfaz ao fim do cortejo, Mas guardo no peito tudo o que me deste: a sombra do teu nome, o vão desejo, e a dor de ter amado — e de ter sido. Ah, que amei tanto e que chorei mais ainda! Minha alma é um cais deserto e sem navio, e o amor que me ficou — cansado e findo — é cinza que o vento espalha pelo frio. Partir foi teu destino, e o meu — ficar, chorando os des_conpassos sobre o mar. Marilândia

2 de maio 2026

“Que soltem as rédeas dos meus sonhos” Jô Tauil _______________________ Que me deixem voar além do que se vê! Sou feita de desejo e de não-sei-quê, De anseios que se acendem aos poucos. Há dentro de mim mares e soluços, Tormentas que ninguém soube conter — Sou a chama que insiste em não morrer, A rosa que floresce entre os arbustos. Quero tudo! A vida inteira numa taça, O céu, a terra, o vento que me abraça, O amor que dói, que sangra, que devora! Que me deem o in_finito entre as mãos nuas, Que eu dance, descalça, sob as luas, E morra de ser eu — inteira — agora. Marilândia