NO PÔR-DO-SOL DO TEU CÉU
Lindo o Sitio onde vês o pôr-do-sol
Não há serra… Não há cume…
Apenas dum verde a imensidão
Onde o céu se pinta em lume,
Numa pintura encantada!
Nesse atalho…
No empedrado da estrada,
Nesse vermelhão de terra,
Que mistérios ele encerra,
Quando a bota o calca e pisa,
Mas logo a suave brisa…
Lhe apaga o pó do caminho!
Que beleza… Que fascínio…
Desse laranja carmim
Que enche os olhos e a alma,
E nessa formosura calma,
Chega a noite de pés, mansa…
E o pôr-do-sol chega ao fim!
F. Serra
Marilândia em resposta aos versos de Francisco Serra
No sítio onde vês o pôr-do-sol,
não há serra, nem cume que resista;
há um verde imenso, solto, absoluto,
onde o céu arde em lume de artista
e a tarde sangra cores impossíveis.
No sítio onde pousas o teu olhar,
é meu peito que se abre em vertigem;
não há altura que me baste
quando o teu silêncio me atinge
e me faz céu sem margem.
No atalho antigo da estrada,
no empedrado ferido de poeira,
o vermelhão da terra murmura
segredos de outra era,
pisados, sofridos, vividos.
Eu sigo esse chão com a alma nua,
cada pedra — um nome que doeu;
mas vem tua brisa, lenta e terna,
e apaga em mim o pó que sobrou
dos caminhos que não fui.
Que beleza! Que fascínio
nesse laranja em carmim aceso,
que enche os olhos, transborda a tarde
e faz do instante surpreso,
eterno demais para o tempo!
Esse mesmo carmim me invade,
é sangue manso no coração;
teu pôr-do-sol não é paisagem —
é incêndio, é confissão,
é o fim de toda negação.
E na formosura calma do ocaso
chega a noite de pés, mansa
como quem não quer ferir
a última luz que descansa
no colo do horizonte.
E eu anoiteço contigo,
sem medo, sem resistência;
se o sol morre no teu céu,
em mim renasce em permanência —
amor que não pede aurora.
Porque quando o pôr-do-sol se acaba,
não termina o que em nós se acendeu:
há poentes que são começo,
há céus que cabem num beijo —
no pôr-do-sol do teu céu.
Marilândia
Aqui está o dueto em VOZ FEMININA e VOZ MASCULINA, com marcação clara para declamação alternada, mantendo o lirismo florbeliano, a sensualidade contida e o tom crepuscular:
NO PÔR-DO-SOL DO TEU CÉU — DUETO
VOZ FEMININA
No sítio onde vês o pôr-do-sol,
não há serra… não há cume…
há um verde imenso que me chama,
onde o céu se incendeia em lume
e a tarde suspira em cor.
VOZ MASCULINA
No sítio onde pousa o teu olhar,
é meu peito que se alarga;
não há fronteira que me baste
quando a tua luz me embarga
e me faz horizonte teu.
VOZ FEMININA
No atalho gasto da estrada,
no empedrado ferido de pó,
o vermelhão da terra antiga
guarda segredos de nós
que o tempo não soube calar.
VOZ MASCULINA
Eu piso esse chão com cuidado,
cada pedra é uma memória;
mas vem tua brisa suave
e apaga da minha história
o peso do que doeu.
VOZ FEMININA
Que beleza… que fascínio…
desse laranja em carmim aceso
que enche os olhos, fere a tarde
e faz do instante um excesso
bom demais para fugir.
VOZ MASCULINA
Esse carmim corre em mim,
feito chama no coração;
teu pôr-do-sol não é paisagem,
é promessa, é rendição,
é silêncio em combustão.
VOZ FEMININA
E na formosura calma do ocaso
chega a noite de pés mansa,
como quem beija devagar
a última luz que descansa
no colo do horizonte.
VOZ MASCULINA
E eu anoiteço contigo,
sem medo, sem resistência;
se o sol morre no teu céu,
em mim renasce em permanência
um amor que não pede manhã.
AMBOS (em uníssono)
Porque quando o pôr-do-sol se acaba,
não termina o que em nós se acendeu:
há poentes que são começos,
há céus que cabem num beijo —
no pôr-do-sol do teu céu.