quarta-feira, 29 de julho de 2026

COSTURANDO 29 DE JULHO E MAIS 3 VERSÕES

"Deixemos sobre o mármore o coração" Jô Tauil __________________________________ Qual lírio branco ao pé do esquecimento... Que a pedra embale, em muda compaixão, O doce e longo adeus do sentimento. Amar foi transformar a própria vida Num cálice de lágrimas e estrelas; Foi dar à noite a luz desconhecida E às mãos do sonho a graça de colhê-las. Se a morte vier com seu luar de espuma, Há de encontrar-nos presos num só beijo, Feitos perfume de uma branca bruma. Pois nada vence o fogo do desejo, Quando uma alma na outra se resume E Deus consagra o amor no seu lampejo. Marilândia OUTRA VERSÃO Deixemos sobre o mármore o coração, Como um sacrário aberto ao desalento; Que a pedra guarde, em muda comunhão, As cinzas luminosas do tormento. Despe-me a alma... Não o corpo apenas; Há véus mais nus que a seda e o linho fino. Quero beijar-te as mágoas mais serenas Como quem unge um santo peregrino. Em teus cabelos dorme a noite inteira, Perfumada de mirra e de jasmim; E a Lua, pálida monja derradeira, Reza silenciosamente por mim. Nos teus braços esqueço a própria morte, Que se ajoelha humilde ao nosso ardor; Pois há um destino mais profundo e forte Que o breve império efêmero da dor. Se o mundo nos condena, pouco importa; Nunca entendeu o incêndio de quem ama. Há uma eternidade em cada porta Que se abre ao sopro de uma única chama. Quando o silêncio enfim nos envolver, E o tempo desfizer toda ilusão, Hão de os anjos curvar-se para ler O nosso amor gravado no mármore do coração. Deixemos sobre o mármore o coração, Como um cálice exausto de ternura; Que a pedra beba a última ilusão E faça da saudade uma escultura. Não chores... Cada lágrima perdida É pérola que o sofrimento cria; Quem ama entrega, inteira, a própria vida Ao altar secreto da melancolia. Beija-me ainda, à beira do abandono, Como se o mundo fosse terminar; Há um céu de cinzas sobre o nosso outono, Mas outro céu insiste em nos chamar. Que importa se a esperança se fez breve? Se a noite veste os lírios de negrume? O amor, quando é divino, nunca deve Temer o inverno nem perder perfume. Se a morte vier, que venha docemente, Vestida com teu rosto e teu calor; Pois morrerei sorrindo, serenamente, Se em teus braços repousar o meu amor. E quando o tempo apagar nossa memória, Florirão jasmins sobre a solidão; Porque nenhum destino vence a glória De quem deixou, no mármore, o coração Deixemos sobre o mármore o coração, Como quem depõe um lírio ao esquecimento; Que o frio da pedra guarde a paixão Que já não cabe no peito nem no pensamento. Se o beijo morreu nas dobras da saudade, Ainda perfume há nas rosas do sofrer; Pois quem amou conhece a eternidade Mesmo quando aprende, em silêncio, a morrer. Trazes nos olhos a luz do meu destino, E eu trago nos meus a noite que ficou; Entre nós canta um distante desatino Que nem o tempo, impiedoso, sepultou. Ama-me ainda, embora seja tarde, Embora o outono desfolhe a nossa flor; Há cinzas que ocultam um incêndio que arde Com mais fervor que o primeiro amor. Deixemos sobre o mármore o passado, Como um rosário de lágrimas sem fim; Que Deus recolha este sonho abandonado, E faça nascer outro céu dentro de mim.

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