ANEES DO SINO DO ANO NOVO
Antes do Sino do Ano Novo E o poeta Elísio se foi, sem pedir licença ao relógio. Nem esperou o novo ano, partiu no sopro do último verso. Deixou a xícara ainda morna, e a madrugada sem resposta. As palavras ficaram na mesa, como pássaros sem rumo. Havia um calendário aberto, um janeiro que não o viu. O tempo, surpreso, calou-se, aprendeu luto em silêncio. Elísio levou seus cadernos, mas deixou a alma escrita. Quem lê seus poemas escuta um coração em vigília. Ele sabia da urgência do instante, por isso não adiou a despedida. Foi-se quando a cidade contava fogos que não estouraram. A noite vestiu-se de espanto, e o céu perdeu um sinal. Não houve sinos nem festas, apenas o eco do nome. O poeta atravessou a sombra com a luz do que sentiu. Seu verbo agora é estrela, seu suspiro, constelação. Choveu mansamente nos olhos de quem o amava em segredo. O ano velho fechou os olhos, envergonhado de ficar. E o novo ano nasceu mais pobre, sem Elísio para nomeá-lo. Mas cada verso que ele disse ainda pulsa entre nós. Na ausência, sua presença cresce, feito raiz sob a terra. Elísio não morreu por inteiro: mudou-se para dentro da palavra. E assim seguimos lendo a vida, até reencontrá-lo no silêncio. Marilândia

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