COSTURANDO 28 SETEMBRO
"Como dar vida ao botão que nem se abriu e já fenece?" Jô Tauil _______________________________________ Se trazia em cada pétala um amor que ninguém conhece... Como salvar do crepúsculo o sonho que amanheceu, Se o beijo que o desejava jamais aconteceu? Há pétalas que estremecem ao sopro de uma paixão, E guardam, trêmulas, segredos no fundo do coração; Há desejos que se calam, por medo de se entregar, E lábios que morrem de sede à espera de um beijar. Meu coração, tão insensato, ainda pergunta: por quê, Se havia tanto desejo querendo nascer e viver? Por que a noite recolhe o que a aurora prometeu, Se o fogo que nos queimava sequer se acendeu? Talvez amar seja um sonho que a própria razão condena, Uma doce ferida de amor, tão amarga e serena; E eu, que te quis em silêncio, com febre e devoção, Fiz do desejo im_possível a mais ardente oração. Se o botão não se abriu, guardou seu perfume em mim, Como um beijo interrompido que não conhece o fim, E talvez, noutra vida, quando o destino disser sim, A flor que morreu no desejo venha florescer em mim. Marilândia Como dar vida ao botão que nem se abriu e já fenece, Se trazia em cada pétala um amor que ninguém conhece? Quem há de salvar do inverno a flor que a noite desfolhou, Se o beijo que a despertava nos meus lábios se calou? Havia em teus olhos um incêndio que me chamava, E em minha boca um segredo que por teu beijo esperava; Mas o tempo, cruel amante, entre nós se interpôs, E deixou somente a ânsia do que não aconteceu entre nós. Ah, como dói o desejo que nasce para não ter fim, A carícia que não houve, mas ainda arde em mim! Há abraços que nunca existiram, mas sabem acariciar, E corpos que, mesmo distantes, continuam a se procurar. Eu te quis com a loucura das noites sem luar, Com a febre de quem ama sem coragem de confessar; E fiz do meu próprio silêncio um altar de paixão, Onde ainda queima, intacta, a chama do coração. Se o botão não se abriu, não morreu o seu perfume: Há desejos que a distância nem o tempo consome. E se a vida nos negar a primavera que sonhei, Em outra existência, amor, por ti florescerei.

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